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euro_symbol€ 20,000 - 30,000 Base - Estimativa
Caixa Lusíada madeira decoração entalhada em talha-baixa “Motivos vegetalistas”, revestimento a laca negra com decoração a ouro, interior com decoração a ouro “Triunfo do Amor”, interior lacado a vermelho, aplicações em ferro, espelho da fechadura recortado “Escudo heráldico” vertente do Sudeste Asiático séc. XVI (2ª metade) pequenos restauros, desgaste no dourado Dimensões (altura x comprimento x largura) - 12 x 26,5 x 21 cm Notas: Colecção privada, Lisboa.Pedro Moura Carvalho afirma que foi “[…] inspirada no «Triunfo do Amor» de Francesco Petrarcha (1304-1374) [esclarecendo que] para além de terem sido publicados inúmeras vezes, os «Triunfos» deste poeta italiano foram também ilustrados frequentemente durante os séculos XV e XVI. A sua notoriedade era de tal forma elevada que um considerável número de majólicas, tapeçarias ou peças de mobiliário foram decoradas com estes temas. Neste caso foi o tema referente ao amor o escolhido, a partir de uma gravura quatrocentista próxima de um original publicado (1488) em Veneza por Bernardino da Novara” – cf. O Mundo da Laca – 2000 Anos de História, p. 143. No catálogo do leilão onde esteve posteriormente integrada é referido que “há, contudo, um aspecto relevante, para que deve ser chamada a atenção: a semelhança das personagens e dos respectivos trajes, presentes na caixa, com as representações habituais, já nessa época, de outras tantas personagens da História de Portugal – D. João III, D. Vasco da Gama, Damião de Góis e Pedro Álvares Cabral – a coroa usada pela personagem real é a coroa usada, à época, pelos reis de Portugal, uma das figuras tem claras semelhanças com o medalhão representando Pedro Álvares Cabral existente no Mosteiro dos Jerónimos. As semelhanças permitem mesmo acreditar que quem executou esta representação, inspirando-se na referida gravura, a terá adaptado para representar as figuras proeminentes da sociedade portuguesa da época” – cf. Cabral Moncada Leilões, catálogo do leilão nº 95, lote nº 94, pp. 100-101.Esta rara e pequena arqueta ou caixa de escrita, feita, ao que tudo indica, em madeira de angelim (Artocarpus spp.), é revestida a laca preta do Sudeste Asiático, ou thitsi, e dourada a folha de ouro nas superfícies exteriores e na face interna da tampa, enquanto o interior é pintado a laca vermelho-cinábrio. Com tampa de levantar, a caixa apresenta um compartimento quadrado maior à direita e um escaninho sob o comprido à esquerda, que teria na origem uma tampa basculante, hoje desaparecida. As ferragens de ferro forjado incluem um espelho de fechadura em escudete, com sua lingueta na frente, uma gualdra na tampa, para facilitar o transporte, e gonzos no tardoz. Todas as superfícies exteriores, excepto o fundo exterior, apresentam decoração em baixo-relevo, avivada a ouro (hoje em grande parte perdida), com ferronneries maneiristas e enrolamentos florais, incluindo grandes peónias e aves, em contraste com cercaduras planas de ornamentação vegetalista a folha de ouro sobre o fundo de laca preta. Esta técnica, conhecida como tiejinqi ou jinqi em chinês, e haku-e em japonês, é característica das lacas birmanesas e tailandesas, designadas, respectivamente, shwei-zawa e lai rod nam.Quando aberta, a caixa revela uma composição extraordinária na face interna da tampa. Executada a folha de ouro sobre o fundo de laca preta e realçada por esgrafitado, de modo a imitar os traços da gravura que lhe serviu de fonte visual, a cena representa o Triunfo do Amor de Petrarca. Um carro, puxado da esquerda para a direita por dois cavalos, transporta, sobre um pedestal escalonado, o Cupido (ou Amor) nu, alado e vendado, apontando o seu arco; logo atrás segue-se uma densa procissão de figuras, entre as quais um rei coroado. Dominando o centro da composição, de um pequeno monte à direita ergue-se, em plena incongruência espacial, um ramo de peónia lenhosa de inspiração chinesa, em plena floração - com flores gigantescas e desproporcionadas - ladeado por aves de cauda longa em voo. Um casal (hoje sumido em parte) surge no canto superior direito, como se observasse a procissão do Amor. Embora as peónias e o diminuto casal em segundo plano constituam adições locais - tendo o casal sido, com probabilidade, concebido para representar os encomendadores da caixa -, a cena inspira-se numa famosa gravura, atribuída a Francesco Rosselli e impressa em Florença na década de 1480, mais de cinquenta anos antes de a caixa ter sido feita no Pegu. Na gravura, o carro de Cupido avança da esquerda para a direita através de uma paisagem ondulada, puxado por quatro cavalos brancos e conduzido por um cocheiro; o Cupido vendado ergue-se sobre um vaso ardente (candelabrum), em equilíbrio sobre um pé e prestes a disparar uma seta; o carro é rodeado por casais de amados (as “vítimas” ou “cativos” do Amor), de trajes variados, incluindo dois reis, e Petrarca aparece em diálogo com um casal, à extrema esquerda.O Triunfo do Amor de Petrarca (Triumphus Cupidinis) constitui o movimento inicial do seu ciclo poético alegórico em língua vulgar italiana, I Trionfi, escrito em terza rima e composto (e revisto por várias vezes) entre 1351 e 1374. Consiste numa visão onírica em que Cupido, numa procissão triunfal de feição romana (um carro e cavalos brancos), desfila um catálogo de ilustres cativos provenientes do mito, da Sagrada Escritura e da história - um espectáculo emblemático do domínio universal do Amor. No plano histórico e cultural, contribuiu para a consolidação da alegoria renascentista ao transpor o triunfo clássico para uma iconografia moral-alegórica duradoura, de larga difusão em manuscritos iluminados, na iconografia dos cassoni, gravuras e tapeçarias. Ao adaptar a gravura ao espaço disponível na face interna da tampa - comprimindo uma composição mais vertical no formato horizontal da tampa -, o artista alterou os trajes das figuras (os amados na procissão de Cupido), para os ajustar ao vestuário usado pelos portugueses estabelecidos na Ásia na segunda metade do século XVI. Tal é evidente em especial no vestuário cortesão das figuras masculinas em primeiro plano, com gibões justos, sobrepostos por jaquetas ou couras, e calças volumosas; complementados por coroas, morriões (capacete de soldado) e barretes.Para além da conhecida laca de exportação japonesa designada por Namban, é possível identificar outros tipos de mobiliário lacado produzido para o mercado português. Estas chamadas lacas “luso-asiáticas” continuam a suscitar debate quanto às suas origens. Ainda assim, por força da sua heterogeneidade, estes conjuntos podem dividir-se em dois grupos. O primeiro, que inclui a presente arqueta, tem sido atribuído à produção birmanesa, em particular ao Reino do Pegu, no actual Myanmar. Esta atribuição assenta em evidência arquivística e material, incluindo a laca thitsi birmanesa, proveniente da espécie Gluta usitata (árvore da laca verdadeira), e técnicas como a shwei-zawa, tal como confirmam análises científicas e pesquisas histórico-artísticas recentes. À luz da iconografia, o carácter nupcial da arqueta é indesmentível, tendo sido, ao que tudo indica, encomendada - como sucedia com muitas peças de mobiliário de luxo produzidas na Ásia para exportação destinada ao mercado português nos séculos XVI e XVII - como parte de um enxoval matrimonial. 1) Publicado em Manuel Castilho (ed.), Na Rota do Oriente. Objectos para o estudo da arte luso-oriental (cat.), Lisboa, Manuel Castilho Antiguidades, 1999, p. 59, cat. 28; e Pedro Moura Carvalho (ed.), O Mundo da Laca. 2000 anos de História (cat.), Lisboa, Museu Calouste Gulbenkian, 2001, p. 143, cat. 67.2) British Museum, Londres (inv. 1883,0310.7). Veja-se Patricia Lee Rubin, Alison Wright, Nicholas Penny, Renaissance Florence. The Art of the 1470s (cat.), Londres, National Gallery Publications Limited, 1999, pp. 144-145, cat. 94 (entrada catalográfica de Alison Wright).3) Veja-se Lucia Battaglia Ricci, “Immaginario trionfale: Petrarca e la tradizione figurativa”, in Claudia Berra (ed.), I «Triumphi» di Francesco Petrarca, Milão, Cisalpino, 1999, pp. 255-298; J.B. Trapp, “Illustrations of Petrarch’s Trionfi from Manuscript to Print and from Print to Manuscript”, in Martin Davies (ed.), Incunabula. Studies in Fifteenth-Century Printed Books presented to Lotte Hellinga, Londres, British Library, 1999, pp. 507-548; e Idem, Studies of Petrarch and his Influence, Londres, Pindar, 2003.4) Hugo Miguel Crespo, Choices, Lisboa, AR-PAB, 2016, pp. 238-261, cat. 22 (com bibliografia prévia).5) Idem, ibidem.