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CABRAL MONCADA LEILÕES - Art Auctioneers - Leilões, Avaliações, Antiguidades, Arte moderna e Contemporânea

APL Arte Deutsche Bank

1ª Sessão
239

JÚLIO RESENDE - nasc. 1917, "A Velha", óleo sobre tela, assinado e datado de Paris, 1948 Dim. - 101 cm x 70,5 cm Nota: O quadro intitulado "A Velha", pintado por Júlio Resende em Paris, em 1948, tem sido objecto de múltiplas referências e expressas menções ao longo do tempo. No seu conjunto, o que tem sido dito e escrito sobre esta pintura, desde logo pelo próprio Autor, mas também pela crítica, reflecte de forma clara o particular significado de que se reveste "A Velha" - por si, e no contexto da obra de Júlio Resende, designadamente no que à cidade do Porto e à Ribeira diz respeito. Isso mesmo justifica que, com a devida vénia, se proceda à transcrição, sem comentários, que seriam supérfluos, de alguns excertos de diversos textos, devidamente identificados, que poderão contribuir para uma melhor compreensão e avaliação da obra, seu alcance e significado. "(...) O Porto figura em todos os meus trabalhos, mesmo aqueles que fiz no estrangeiro. O sentimento que nutro por esta cidade é indissociável da minha pintura. Vou dar um exemplo: um dia, quando estava em Paris, vim à janela, numa manhã de Inverno rigoroso, e vi uma velhinha que passeava os seus cães na rua coberta de neve. Aquela silhueta negra, em contraste com o branco da neve, despertou o meu interesse e de imediato pintei um quadro, que intitulei "A Velha". Aquela figura é de uma mulher da Ribeira. Isto para dizer que a cidade está sempre dentro de mim.(...)" - Excerto da entrevista concedida pelo Autor à publicação VIVA! Antas, nº 9, Março de 2001, intitulada "Júlio Resende - O mestre do Porto" "(...) Eu tinha dez anos e já ia para a Ribeira fazer os meus desenhos. Lembro-me de, com essa idade, ter comprado uma revista que tinha na capa um Goya da sua fase negra. E essas figuras da fase negra do Goya lembram-me muito as personagens, as silhuetas da Ribeira. Uma vez em Paris, em 1947, vi uma figura frágil, com um capote, e resolvi pintá-la. Só mais tarde é que me apercebi da semelhança entre as pessoas da Ribeira e a tal figura que eu tinha pintado em Paris. Ainda hoje faço aquela curva, aquela silhueta, que é uma marca do meu trabalho..(...)" - Excerto de entrevista concedida pelo Autor ao "Porto de encontro" - Revista da Câmara Municipal do Porto, Edição Especial, 2001, intitulada "Júlio Resende - Memórias de um expressionista" "(...) Os Dubois, pai e filho, vitralistas e mosaístas, ceder-me-iam o atelier num "impasse" da Rua Vercingetorix, junto do Boulevard Quinet. Aí, pintaria o quadro mais significativo dessa altura: "A Velha". Certa manhã, caindo intensa neve, ao chegar à janela do quarto do pequeno hotel que confinava com o Cemitério, vi uma mulher idosa caminhando penosamente na brancura da neve. Era apenas uma silhueta de dor sustida por dois filamentos rematados por enormes botas. Sem perda de tempo, fui ao atelier de Pierre Dubois, e de um fôlego fiz essa pintura (...)" - Júlio Resende, in "Autobiografia", Colecção "Autobiografias", Edições "O Jornal", Lisboa, 1987, pág. 21 "(...) Velha" - "Um pendor gestual irrompe nesta pintura, mau grado a eclosão do abstraccionismo geométrico que dominava Paris de então./ "Naquela manhã de um quarto de hotel do Boulevard Edgar Quinet, paredes meias com o cemitério de Montparnasse, o intenso nevão silenciava Paris. Ao abeirar-me da janela vejo caminhar pesadamente uma silhueta negra de miséria, sustentada por dois filamentos rematados por pesadas botas. Comungo com ela, talvez despertado por uma longínqua e tão próxima nostalgia da "minha" Ribeira. A pintura "Velha" surgiu num ápice.(...) J. Matos Chaves / Arsénio Mota, "Júlio Resende - A ARTE COMO/VIDA", Porto, Civilização, 1989, pág. 48.

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